“Penso no outro mundo. Não penso em mim mesmo, só no que estou fazendo.” Essa foi a resposta dada pelo pintor Papa Roma, quando lhe perguntaram sobre a sensação que tinha ao exercer o ofício. Segundo Papa Roma, “não há melhor refúgio das atribulações do mundo que a arte.”
Júlio Papa de Roma ou Papa Roma, como era conhecido, nasceu em 12-04-1921, em Nova Era, mas se considerava itabirano de coração. Veio para Itabira, em 1948, para jogar no Valeriodoce Esporte Clube, time da cidade, e desde então não saiu mais daqui. Nesse clube permaneceu por dez anos, na posição de goleiro. Antes disso, jogava na mesma posição, no Retiro Esporte Clube, de Nova Lima. Além de atleta, foi também mecânico e motorista de ônibus da CVRD, profissão na qual permaneceu até se aposentar.
Papa Roma começou a pintar aos 14 anos. A pintura, segundo ele, era “um dom dado por Deus”, pois o artista era autodidata. Em seu primeiro quadro retratou Nossa Senhora de Aparecida. Esse artista plástico considerava a pintura uma “cachaça”, pois nos momentos de folga lá estava ele; em seu atelier; de telas, pincéis e tintas em punho entregue ao vício.
Em suas obras podem ser observados a religiosidade, o dia a dia da cidade de Itabira dos tempos antigos e a história do Brasil. Seus trabalhos já foram expostos em galerias de artes da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade e do Palácio das Artes; e em diversos pontos de Itabira. Inclusive, nessa exposição do Palácio das Artes, Papa Roma ganhou o prêmio de participou do IV Salão de Artes Plásticas do Conselho Estadual de Cultura, concorrendo com 1200 obras de mais de 300 candidatos.
Seu acervo é incalculável, pois não tinha registro do número de telas que pintava. Além disso, sua maior gratificação era doar os quadros aos amigos, então esse controle ficou difícil. Atualmente, a maior parte de seus trabalhos estão em residências particulares, gabinetes de prefeito das cidades de Itabira e Belo Horizonte ou em instituições públicas dessas e de outras cidades mineiras.
Esse artista das artes era também um grande homem que lutava pelas causas em prol da comunidade do bairro Boa Esperança, à qual pertencia, trazendo benefícios para o local.
Júlio Papa de Roma faleceu em 31-01-1997.
Júlio
Papa de Roma por ele mesmo. Escrito em 1978.
“Eu, Júlio Papa de Roma, brasileiro, casado, residente nesta cidade de Itabira, presto a informações sobre a minha vida laborativa sucintamente e dentro de toda a veracidade, como abaixo se segue.
Nos idos de 1945 a 1948, integrava a equipe de jogadores de futebol do América em Belo Horizonte e nesse interregno de tempo também joguei pelo Itaú de Minas, de onde, em 1948, fui abordado como convite para o Valériodoce pelo superintendente das Minas da CVRD, Sr. Dr. Carlos Nunes de Lima, que na época substituía o superintendente efetivo, Dr. White Red, que se encontrava em viagem para o exterior. Naquela época também recebi convite para ingressar-me na equipe da Ponte Preta de São Paulo, todavia, me interessei mais pelo Valériodoce, ocasião em que, chegando a Itabira, hospedei-me no Hotel Euvétria. Passado alguns dias, fiz um coletivo a título de experiência , e o que concluíram os dirigentes do plantel do Valériodoce foi de absoluta surpresa pra mim, pois já no domingo seguinte, tinha minha escalação garantida, defendendo no gol os desejos do Dragão contra o Ferro Brasileiro, da cidade de Caeté. Entusiasmei a grande torcida presente, principalmente os dirigentes do Valériodoce, pela grande agilidade que eu possuía e experiência; obtivemos uma vitória muito boa, uma a zero no marcador, conquanto aquele time havia anteriormente dilacerado o Valério com uma vitória de seis a zero, em setembro de 1948.
Não pretendia fixar-me no Valériodoce, porém, laços de amizade tornaram-se cada vez mais sólidos , tanto com os dirigentes do clube, como com a massa torcedora. Por essa razão, rodeado de tanto manisfesto de carinho, decidi ficar e ingressar definitivamente no quadro de trabalhadores da Companhia Vale do Rio Doce, mas contudo sem abandonar o esporte. Trabalhei no transporte pesado do Cauê, puxando minério para o Campestre, sendo meus encarregados de serviços na época Mister Franklin e José do Carmo Lage, este chefe de transporte, para o qual no meço palavras e nem tenho adjetivos para qualificá-lo, face sua grande e dedicada capacidade de homem mantenedor da ordem e dos bons costumes. Várias forma as vitórias conquistadas pelo VEC nos dez anos que ali mantive a minha conduta como atleta e nenhuma decepção.
Afastei-me temporariamente do esporte durante três anos, e, ao regressar-me, defrontamo-nos com o Botafogo do Rio de Janeiro, que até então era um dos times de futebol mais fortes do Brasil, mas , para a surpresa de todos, a conquista valeriana foi indubitável, dois a um no marcador, isso em 1957.
Resolvi afastar-me novamente do gramado, porém, passei a enfrentar a quadra de futebol de salão e desta modalidade veio a conquista de campeão. Depois, decidido de vez não amis jogar futebol, dediquei-me integralmente ao trabalho junto ao Dr. Renault Lage, outro inconteste batalhador para o progresso da empresa.
Nessa época, fui eleito como diretor segundo secretário do Sindicato Metabase e depois como membro efetivo do Conselho Fiscal. Em seguida, como delegado representante junto a federação , quando então fui delegado pelo senhor Benedito Moreira a representar a entidade junto à Companhia Vale do Rio Doce, pleiteando um reajustamento salarial da ordem de oitenta por cento , que no caso seria equiparação dos salários dos empregados da Leopoldina. Com os dirigentes do Sindicato de Vitória, conseguimos sucesso na reivindicação. A Companhia Vale do Rio Doce concedeu aumento de oitenta por cento, o que foi considerado aumento Cadilac. Trabalhei no transporte leve da CVRD, transportando todo o pessoal, em particular as oitenta e seis professoras, distribuindo-as nos grupos de Campestre e Conceição.
Nas minhas horas de lazer, estudava por correspondência o curso de pintura artística, formando-me pelo Instituto Universal Brasileiro, sendo paraninfo e Cônego José Lopes dos Santos, hoje monsenhor.
Hoje sou aposentado pelo INPS e dedico o meu tempo às obras divinas, à associação de amigos do bairro Chapada e pinto quadros com estilo barroco e sacro, procurando introduzir-me na pureza da espiritualidade, do pensamento e da riqueza folclórica do nosso país.
Itabira, 1978, Júlio Papa de Roma.”
Texto cedido por Júlio Cézar Luz de Roma, neto de Júlio Papa De Roma.

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